O mito da meritocracia e o populismo de direita

01 de outubro 2023 - 22:17

A meritocracia é fundamentalmente a ideia de organizar a sociedade como se fosse uma corrida em que o melhor (o mais talentoso, o mais trabalhador) ganha. Mas, para que haja (alguns) vencedores, também tem de haver (muitos mais) perdedores. Por Lisa Pelling.

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Foto fdecomite/Flickr
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Quando Michael Young, um influente sociólogo britânico, escreveu The Rise of the Meritocracy ["A Ascensão da Meritocracia"], nos anos 1950, pensou no livro como uma sátira e a sociedade meritocrática que descreveu, como uma distopia. O texto de Young, publicado em 1958, é escrito como se fosse um relatório sociológico. Num imaginário ano 2034, um sociólogo preocupado tenta compreender a causa de uma série de acontecimentos perturbadores: motins, ataques terroristas, um assalto ao Ministério da Educação.

Porque é que as pessoas não são felizes, agora que a sociedade se tornou uma meritocracia perfeita? Porque é que os pobres se ressentem da ordem social, uma vez que o mérito triunfou finalmente sobre a linhagem e a inteligência substituiu a classe e as relações como bilhete de entrada para a elite?

No ano 2034 de Young, a sociedade é uma meritocracia conscientemente desenhada. Os testes de inteligência são utilizados para identificar as crianças mais talentosas, para que recebam a melhor educação e ocupem as posições mais importantes na sociedade. O talento já não se desperdiça, nem nada se desperdiça com quem não tem talento.

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Um aviso, não um guia

Mas, atualmente, tanto os liberais de esquerda como os de direita leem o romance de Young como um guia e não como um aviso, defende Petter Larsson. Colunista do mais importante diário sueco, "Aftonbladet", Larsson é autor de Riggat: Hur tron på meritokratin minskar chansen till en klassresa ["Jogo viciado: Como a fé na meritocracia reduz as oportunidades de mobilidade de classe"], publicado recentemente.

Os liberais adoram a ideia de meritocracia. Mas embora a meritocracia prometa igualdade de oportunidades, não pode criar condições equitativas. A meritocracia é fundamentalmente a ideia de organizar a sociedade como se fosse uma corrida em que o melhor (o mais talentoso, o mais trabalhador) ganha. Mas para que haja (alguns) vencedores, também tem de haver (muitos mais) perdedores. A meritocracia não é o fim da sociedade de classes, ela pressupõe a sua preservação.

Para os liberais que se opõem às políticas redistributivas, a meritocracia é também a desculpa perfeita. Se as posições na sociedade são conquistadas estritamente pelo mérito, não só não há necessidade de redistribuição, como a redistribuição seria moralmente incorreta, uma injusta e injustificável penalização daqueles que não se esforçaram o suficiente, o que, por sua vez, envia todos os sinais errados àqueles que o fazem.

Profunda desilusão

Young foi o autor do manifesto eleitoral Let us Face the Future ["Afrontemos o futuro"], que deu ao Partido Trabalhista britânico uma vitória esmagadora em 1945. A auge do governo de Clement Attlee foi a criação do Serviço Nacional de Saúde, sem dúvida a mais poderosa instituição redistributiva da história do Reino Unido. Responsável pela criação do termo meritocracia com o seu clássico best-seller, Young ficou profundamente desiludido com a conotação positiva que o termo adquiriu nas décadas posteriores.

"Escolher certos indivíduos para certos empregos com base no mérito revela bom senso", sublinhava num artigo frequentemente citado no The Guardian, em 2001. Mas continuava: "O contrário acontece quando aqueles que são considerados como tendo mérito suficiente para uma determinada coisa são consolidados numa nova classe social que não tem espaço para os outros". Em "forte contraste" com o governo pós-1945, escreveu, o governo trabalhista de Tony Blair estava "largamente preenchido" com "membros da meritocracia".

Hierarquia social engomada

O mito da meritocracia cria uma hierarquia social rígida e moralmente carregada. No topo, estão aqueles que são considerados (e se consideram) os mais merecedores. É suposto terem conquistado as suas posições através da inteligência, do talento e - acima de tudo - do trabalho árduo. Merecem o seu estatuto social, bem como os seus rendimentos elevados. Os que estão no outro extremo da escala social, por outro lado, são considerados indignos de tudo, exceto do seu destino. São devidamente confinados ao extremo inferior da escala de rendimentos e ao mais baixo prestígio social.

O filósofo norte-americano Michael Sandel resume-o em Tyranny of Merit: What’s Become of the Common Good? ["A Tirania do Mérito: O que foi feito do bem comum?"]. "Numa sociedade desigual, aqueles que ascendem ao topo querem acreditar que o seu sucesso é moralmente justificado. Numa sociedade meritocrática, isto significa que os vencedores têm de acreditar que mereceram o seu sucesso através do seu trabalho e do seu esforço".

Arrogância e vergonha

No entanto, esta individualização do sucesso (e, consequentemente, do fracasso) tem consequências destrutivas nos dois extremos da hierarquia social. No topo, gera arrogância; na base, gera vergonha. Aqui está uma potencial peça em falta na nossa compreensão do populismo de direita. Como nos recorda o especialista Cas Mudde, os eleitores do populismo de direita não são esmagadoramente da classe trabalhadora, vêm de todos os escalões de rendimento. Em vez disso, tendem a partilhar uma outra característica: têm, na sua esmagadora maioria, um baixo nível de instrução.

Talvez estes eleitores não sejam tanto os "perdedores da globalização" como os perdedores de uma sociedade construída sobre o mito da meritocracia. Numa sociedade assim, os indivíduos pouco instruídos são ensinados a sentir vergonha: por não serem suficientemente inteligentes, por não se terem esforçado o suficiente na escola.

Mostrar-lhes algum respeito é então a chave para os reconquistar. Foi este o leitmotiv da campanha de Olaf Scholz que levou os sociais-democratas alemães à vitória nas eleições para o Bundestag de 2021.

Nenhum modelo a seguir

Stefan Löfven, o antigo primeiro-ministro sueco que é atualmente presidente do Partido dos Socialistas Europeus, encarna uma história pessoal de mobilidade de classe. Nascido na pobreza, teve de ser dado para adoção pela sua mãe, quando era bebé. Löfven cresceu com uma família de acolhimento no norte da Suécia. Soldador de profissão, tinha um emprego clássico de homem da classe operária. Graças à confiança que os seus colegas de trabalho depositavam nele, subiu na escala social.

Começou por ser eleito representante do sindicato dos metalúrgicos. Acabou por se tornar presidente deste sindicato com 300.000 membros. Em 2012, foi eleito presidente do Partido Social Democrata. Em 2014, tornou-se primeiro-ministro.

No entanto, Löfven sempre rejeitou o seu retrato como um modelo a seguir, a prova viva de que a Suécia é um paraíso de mobilidade social. "Há algo de fundamentalmente errado com esse raciocínio", argumentou no seu emotivo discurso de despedida no congresso do partido de 2021. A sua trajetória de vida, explicou, foi possível graças à expansão do Estado-providência. No entanto, os liberais, que tão fervorosamente apoiaram as "transferências de classe" como a dele, opunham-se sistematicamente a essa extensão.

"Mas acima de tudo", disse, "oponho-me a esta ideia burguesa de que a classe trabalhadora é algo a que se deve querer fugir". E mostrou uma visão progressista e não meritocrática: "Ser trabalhador não deve significar viver na pobreza, ter de trabalhar no duro ou ter medo de morrer no trabalho. Deveria ser possível viver bem, sentir-se seguro, ter um emprego para o qual se quer ir, ter a liberdade e o poder de moldar a sua própria vida. Queremos construir uma sociedade que seja tão boa para uma ama como para um gerente de banco, para um camionista como para um médico. Queremos construir uma sociedade que seja tão boa para o soldador como para o primeiro-ministro."

De certeza que o defunto Michael Young teria aplaudido.


Lisa Pelling é Cientista Política, Diretora do grupo de reflexão "Arena Idé", sediado em Estocolmo. Colabora regularmente com o diário digital "Dagens Arena" e tem experiência como Conselheira política e redatora de discursos no Ministério dos Negócios Estrangeiros da Suécia. Publicado originalmente em Social Europe e republicado em Nueva Sociedad. Traduzido por António José André para Esquerda.net